Dois álbuns. O suficiente para colocar a banda/dupla Calle 13 na lista de artistas mais importantes de Porto Rico. A importância aqui não é apenas fruto dos cinco Grammys Latinos, conquistados nas duas últimas edições da premiação, é também resultado de um trabalho interessante e cheio de alternativas. Nas letras de René Perez (o Residente) e nos sons de Eduardo Cabra (o Visitante), o Calle 13 flerta com diversos ritmos latinos e constrói um disco que tem um ar de originalidade que salta aos ouvidos.

Residente o Visitante, lançado em abril de 2007, dá mais um passo para distanciar a banda do reggaeton tradicional. A sonoridade não se esgota no padrão reggaetonero de batidas marcadas, e muitas vezes repetitivas, e ganha um aspecto menos linear, linha que já tinha começado a ser traçada no primeiro disco da banda, chamado Calle 13. O reggaeton na prática se torna apenas mais um ingrediente (fundamental, é verdade) na salada musical que é o disco.

A unidade do trabalho se sustenta na voz, letras e atitude de Residente. Satírico e debochado, mas ao mesmo tempo longe da tiraera e da postura intimidadora que muitas vezes o reggaeton compartilha com o rap estadunidense. As conotações sexuais estão presentes, com muito humor é verdade, mas é no modo de cantar que o álbum encontra seu principal fio de sustentação.

O novo trabalho ganha fôlego e corpo com participações distintas. É assim com os argentinos e uruguaios do Bajofondo Tango Club, na música “Tango Del Pecado”, uma das faixas que exemplificam o que foi dito sobre o Calle 13 até agora. Canção que abre o cd e dá algumas indicações do caminho incerto que virá a seguir. O fato é que as contribuições ajudam a delinear as diferenças do álbum, seja no ar hip-hop da espanhola Mala Rodriguez, em “Mala suerte com el 13”, ou no som característico da banda cubana Orishas, em “Pal Norte”.

Na seqüência também sobram espaço para letras um pouco mais politizadas como “Llegale a mi guardia” e “La era de la copiera”, ou românticas como “Beso de Desayuno”. E é em alguns desses respiros e músicas mais lineares, como “Algo con sentido”, que o disco se perde um pouco. Tanto em faixas mais paradas como também na tendência a cair em um estilo de hip-hop mais usual.

Na verdade, a presença do reggaeton rende faixas bem trabalhadas e poderia ser mais explorada. O Calle 13 faz isso muito bem e os melhores momentos do álbum aparecem exatamente quando a mistura de gêneros musicais atinge um equílibrio. Críticas feitas, o fato é que o resultado final é muito bom e o disco merece um espaço na mochila dos exploradores musicais.

Até a próxima!