Na primeira vez que ouvi Los Saicos (1964-1966) confesso que não entendi nada. Nem as letras e nem a proposta. Essa banda peruana, que durou apenas três anos e gravou só 12 músicas, pareceu para mim somente uma coisa psicótica e descontextualizada.

A partir do twist dos Ventures e o iê iê iê dos Beatles, eles simplesmente criaram outro estilo, parecido com as agressivas garage bands que estavam surgindo simultaneamente nos Estados Unidos (e que dificilmente teriam influenciado eles).

Indo um pouco mais longe, juro por Deus que, tirando os cabelos coloridos e as franjinhas “ramonas”, Los Saicos já tinham em si algo do punk que viria a surgir uma década pra frente.

Sei muito bem que não é punk, mas as bandas do estilo surgidas tempo depois assumiram a canção “Demolición” dos Saicos como hino do movimento no Peru. O próprio nome do grupo já traz em si um elemento punk: 1) Viria de sádico, mas o “d” teria sido suprimido para não parecer tão ofensivo. 2) ou seria simplesmente a palavra psycho, escrita pela grafia castelhana.

Tudo bem que na época o Roberto mandava tudo pro inferno aqui no Brasil, mas em 1965, Los Saicos já davam berros que ultrapassavam de longe a agressividade dos gritos de Lennon em “Twist and Shout” (ressalto que não estou falando aqui sobre qualidade musical).

Pelo que pude perceber, Los Saicos não tinham acesso a amplificadores com as melhores distorções. Dessa forma, só conseguiam distorcer um pouco os instrumentos subindo os volumes até o talo (tem coisa mais punk que isso?), sem contar que microfonia também não era problema para eles.

O nome de algumas canções que compõe a coletânea Saicos lançada em 2005 também dá uma idéia do espírito pré-punk da banda: “Demolición”, “Camisa de fuerza”, “Cementerio”, “Fugitivo de Alcatraz”, “Salvaje”, “El Entierro de los Gatos” e “Intensamente”.

Abaixo, confira a crueza dos instrumentos somada aos vocais repetitivos e agressivos, marcas do proto-punk dos Saicos.