É sempre mais complicado, mas nunca é impossível. Depois de encarar 5 continentes, suas diferenças culturais, zonas de conflito e tantas outras variáveis, o resultado é este: 14 discos que você provavelmente não vai ver por aí em outras listas.

Do Canadá ao Japão, da Noruega ao Uruguai, essa é a nossa versão do leste-oeste-norte-sul. No lado de dentro desse polígono, tivemos momentos de introspecção com a Venezuela, para depois ferver o sangue latino com o Chile. Abrimos a janela para sentir vento no rosto com o norte da África, e sonhamos com liberdade ao som do Oriente Médio.

Empurramos os móveis para fazer um mosh com os suecos no meio da sala. Vimos o abraço entre Romênia e Canadá, enquanto Japão e China formavam um casalzinho. Era uma festa ao estilo de Alemanha e Singapura, em que dançamos abraçados com os países nórdicos e com o Sudão.

Sejam bem-vindos à nossa humilde seleção, que respeita um dos nossos princípios mais caros e fundamentais: a aleatoriedade. Uma lista de melhores álbuns que abraça de tudo um pouco, porque somos fãs desse mundo grande e selvagem.

Abra uma nova aba, aperte o play, volte aqui e divirta-se!

14º lugar

capa-notevagustar
Lançamento: 09/10/2014
Ouça: Comodín, Detras del Cerro e Me Ilumina Hoy

Com 20 anos de estrada, este é o oitavo disco da banda uruguaia No Te Va Gustar. As letras de “El Tiempo Otra Vez Avanza” estão naturalmente influenciadas pelo falecimento do tecladista Marcel Curuchet, dois anos atrás. Discordamos, contudo, dos críticos que observam esta influência na sonoridade também. O álbum anterior, “El Calor del Pleno Invierno”, trazia um aspecto sombrio em suas notas com muito mais evidência que o novo trabalho. Se há algo que nos passa impressão mais significativa a respeito, é o fato de “El Tiempo” ter sido gravado com toda a banda tocando simultaneamente em estúdio, em vez de um instrumento por vez. Mais que qualquer ganho técnico perceptível, essa decisão dá uma melhor dimensão do luto no grupo: na perda de um amigo, os outros escolheram se unir na hora de lembrá-lo.

13º lugar

capa-sapporosafaris
Lançamento: 12/07/2014
Ouça: Oxygen Man II e Acrobatic You

Se a ideia é fazer uma festa, quanto mais amigos melhor, certo? História e som do Sapporo Safaris seguem por aí – uma vontade de fazer música que foi recebendo amigos, amigos de amigos e encontros fortuitos, até virar uma banda de nove integrantes. Mais que isso, uma musicalidade que recebeu cada um desses instrumentos e o incorporou, construindo um som rico, de composições que parecem contar histórias para se ouvir e rir em roda. “Is it Just Another Day” é um EP com cara de celebração, que parece continuar de onde o primeiro (“Figures of Eight”) parou. Como uma festa divertida, em que se lembram velhas histórias e se constroem novas a serem contadas.

12º lugar

capa-takakominekawa-dustinwong
Lançamento: 23/09/2014
Ouça: Dimension Dive Trilogy

A japonesa Takako Minekawa é parceira de Moreno Veloso em uma faixa de seu último álbum “Coisa boa”. Dustin Wong nasceu no Hawaii, foi criado no Japão e é meio chinês, meio americano. Ela construiu uma carreira ligada ao interessante subgênero do J-pop conhecido como Shibuya-kei. Ele tinha uma banda de art-rock nos EUA chamada Ponytail. Lançaram este ano o segundo disco juntos. “Savage Imagination” avança alguns passos na experimentação ao cruzar as linhas de guitarra, sintetizador, drum machine, teclado e voz. Os loops e os improvisos resultam em um trabalho complexo, nem tão acessível, mas ao mesmo tempo deliciosamente leve.

11º lugar

capa-cro
Lançamento: 06/06/2014
Ouça: Traum, Meine Gang (Bang Bang) e Jetzt

Carlo Waibel tornou-se o mais bem-sucedido rapper da Alemanha quando vestiu uma máscara de panda e se lançou sob a alcunha Cro. Naquele tão próximo 2012, Cro arrebentou as paradas com álbum “Raop”, combinação Rap + Pop, gênero que dizia estar criando. Dois anos e um novo álbum depois, a questão continua no ar: teria ele, de fato, criado um novo gênero? É cedo pra concluir. “Melodie” é um álbum que funciona muito bem em seus momentos pop; que possui cadência e ritmo em seus momentos rap; e que sim, nas faixas em que essa combinação química realmente acontece, o raop explode feito um hit que já nasceu nas pistas de dança.

10º lugar

capa-kioskLançamento: 06/08/2014
Ouça: Saz Nemishe Zad, Alan Mige Yadesh Nist e Keramat
Antes de qualquer coisa é preciso dizer: a música que o Kiosk faz é proibida em seu país. Sendo assim, a banda que se formou na cena underground do rock iraniano, tocando escondida em qualquer “quiosque”, se viu obrigada a fugir dali. Exilados, parte nos EUA, parte no Canadá, seguem cantando em Farsi, seguem fiéis às suas referências, misturando rock, blues e gypsy jazz. “Zang Bezan Azhans (Call a cab)” se parece com os discos anteriores e isso não é um mau sinal. Soa maduro, responsável, algumas vezes divertido, outras vezes sombrio. O ponto é que eles sabem se portar diante do que a vida te propõe como obstáculo. Com os limões que tinham em mãos, fazem, de novo, uma bela e saborosa limonada.

9º lugar

capa-moLançamento: 10/3/2014
Ouça: Pilgrim, Maiden e Don’t Wanna Dance
Da Dinamarca nos chegaram duas novidades em um lançamento só: Karen Marie Ørsted, a , com seu consistente “No Mythologies to Follow” e a inclusão da letra “Ø” no alfabeto do pop eletrônico mundial (ao que tudo indica, a pronúncia fica no meio do caminho entre o nosso “U” tradicional e o “U” francês, como em “menu”). Seu disco de estreia é recheado de faixas com um enorme potencial radiofônico. O destaque fica para a versatilidade e a personalidade da voz, que se sai bem nas baladas e nas batidas, quando alonga e quando encurta as notas. Na capa, uma semelhança que ninguém comenta: seria uma homenagem comportada ao clássico “Tødøs øs Ølhøs” do Tøm Zé?

8º lugar

capa-anatijouxLançamento: 18/03/2014
Ouça: Vengo, Antipatriarca e Creo en Ti
“Vengo” é desses álbuns que nos deixa tristes por conta da infeliz barreira que nos separa do restante da América Latina. Ana Tijoux já foi recomendada pelo Thom Torke, foi trilha do seriado Breaking Bad e do game Fifa 11, mas continua produzindo indeferença nos ouvidos brasileiros. Em seu quarto disco solo, a franco-chilena levanta mais uma bandeira política, contundente e direta que confirma sua posição entre os grandes nomes do hip hop latino, com o tempero das raízes andinas. Na faixa “Antipatriarca” ela marca o lugar conquistado pelas mulheres: “No sumisa ni obediente / Mujer fuerte insurgente / Independiente y valiente / Romper las cadenas de lo indiferente” e avisa no refrão: “Tu no me vas a silenciar, tu no me vas a callar”. Que assim seja.

7º lugar

capa-maxcapoteLançamento: 31/12/2013
Ouça: Ana, Sin Mentirte e It Was Me
“Ele achou que ia ficar fora das listas com essa palhaçada de lançar disco no último dia. Mas não vai conseguir”, foi o veredito. Lançado nos acréscimos de 2013, o disco de Max Capote acabou sendo o primeiro álbum bárbaro de 2014. Piada à parte, “Aperitivo de Moda” é um trabalho muito bem humorado, como tudo que envolve outros pontos da carreira do cantor uruguaio, que parece mesmo gostar de um pouco de galhofa. Sua voz carrega um tom proposital de canastrice que é um dos charmes de seu trabalho, em que uma metade do álbum é contemporânea e a outra faz uma homenagem ao rock latino dos anos 60. Só não estamos certos sobre em qual metade incluir sua versão para Desafinado, de Tom Jobim e Newton Mendonça.

6º lugar

capa-boomboomclanLançamento: 30/01/2014
Ouça: Monika, Marié, Kocham cie
Uma das bandas mais interessantes da Venezuela lançou seu primeiro e único álbum – cinco anos após o fim de suas atividades! O Boom Boom Clan surgiu em 2003, deu corpo a uma nova cena eletrônica, influenciou bandas e encerrou atividades em 2009 sem lançar o álbum no qual vinham trabalhando. Formada por integrantes de diferentes bandas do cenário hardcore de Caracas, estes punks venezuelanos construíram um disco de incrível sensibilidade, com uma sonoridade redonda. Kocham Cie (“eu te amo” em polonês) é a faixa que parece explicar o álbum: exceto por ela, as canções instrumentais levam todas nomes de mulheres e parecem poesias eletrônicas, confissões de amor ou lamentos de separação. Em vez de significar um novo começo, “Lo Mejor de Ella” é um requiem, o fechamento de um ciclo.

5º lugar

capa-tinariwenLançamento: 10/2/2014
Ouça: Toumast Tincha
O Tinariwen ser cultuado em diferentes partes do mundo é das mais finas e agradáveis ironias do destino que o mundo da música pode nos apresentar. Não pela qualidade do que fazem, é claro, mas porque a história envolve a vida em campo de refugiados, serviço militar obrigatório, resistência, a primeira guitarra feita com freio de bicicleta, e o deserto, o personagem principal. O Grammy e os aplausos são fatos muito recentes, mas que reforçam a necessidade de se ouvir “Emmaar”. Mesmo tendo sido gravado nos EUA, a guitarra nômade que vem do norte do Mali continua criando suas linhas hipnóticas e emoldurando os vocais que nos fazem pisar em areia escaldante e ter a certeza de que o Saara não é só um lugar: é um estado de espírito.

4º lugar

capa-goatLançamento: 23/09/2014
Ouça: Talk to God, Words e Hide from the sun
Inspirada na mitologia nórdica e pensada como uma espécie de ritual voodoo em que os membros não têm nomes e se vestem e usam máscaras como se fossem uma tribo, a banda sueca Goat lançou “Commune”, seu segundo disco. Toda essa prosopopeia espiritual serve de background carnavalesco (um tanto quanto desnecessário) para uma música que se sustenta sem todos esses artifícios. A distorsão, a repetição e o vocal fazem um acid rock com uma característica bem peculiar ao explorar os trejeitos do gênero e cruzar essas referências com música étnica. Ótimo disco para embalar transes, porres, experiências fora do corpo, em resumo, vai bem com qualquer tipo de estado alterado de consciência.

3º lugar

capa-adrianraso-fanfareciocarliaLançamento: 17/01/2014
Ouça: Urn St. Tavern, C’est La Vie e Leezard’s Lament
Uma fanfarra dos balcãs e um herdeiro de tradições mediterrâneas. Um disco não era pequeno demais para esses dois, e “Devil’s Tale” tornou-se casa da combinação de duas escolas da música cigana. Famosa no mundo inteiro pela energia de seus shows, a Fanfare Ciocarlia saiu da sua zona de conforto nesta parceria com Adrian Raso. Fora do papel de protagonistas, os sopros romenos trabalham em harmonia com a guitarra canadense, em muitos momentos assumindo com beleza um posto de suporte para que as cordas de Raso possam brilhar. Músicas para duelos ao entardecer, reflexões após viagens pelo deserto, ou para animadas brigas em saloons. Ao todo, dez composições pelas quais Tarantino teria se matado para colocar na trilha sonora de seu último western.

2º lugar

capa-toddterjeLançamento: 8/4/2014
Ouça: Leisure Suit Preben, Alfonso Muskedunder e Inspector Norse
Já faz mais ou menos uns 10 anos que esse DJ norueguês vem aparecendo aqui e ali com uma versão, um remix ou uma participação no disco de algum figurão. Em 2014, Todd Terje decretou “It’s Album Time” e pôs a mão na massa para inaugurar uma discografia autoral própria. O resultado é um revival de space disco com jazz que constrange quem não sabe dançar, porque a vontade é irresistível. Além de estar na lista, merece uma menção honrosa por confirmar uma tese que nos é cara: a relatividade do tempo – Todd Terje faz um disco hoje, que aponta pro amanhã com a música de ontem.

1º lugar

capa-sinkane
Lançamento: 02/09/2014
Ouça: Yacha, Moonstruck, Omdurman (e veja o videoclipe de How We Be)

Filho de duas pátrias, Ahmed Gallab era figurinha comum em participações especiais para outras bandas. Nascido na Inglaterra, mas de origem e coração sudaneses, Gallab escolheu apostar em si mesmo em 2012, quando assumiu o nome artístico Sinkane para lançar seu primeiro disco (“Mars”). Sua música traz a força dos beats africanos para suas composições, e seu disco era, ao mesmo tempo, uma aventura espacial e um passeio pela praia. “Mean Love” mantém ambas qualidades (uma sinestesia de cores quentes e cheiro de novidade), com um avanço sensível: o que antes era experimental, agora é certeza. Sinkane está mais seguro de si, e isso transborda em energia no som e em seus vocais. Soul music em forma de pura modernidade.

 

Textos: Igor Costoli e Thiago Borges / Artes: Guilherme Almeida