A Holanda – ou Países Baixos, como prefere ser conhecida – foi mais uma das boas surpresas durante a pesquisa para o Invasões. Não que o país em si não fosse um dos celeiros culturais do mundo ocidental. O que acontece é que no campo cultural os holandeses parecem sofrer de uma espécie de baixa auto-estima lingüística. Ouve-se quase que apenas música em inglês, as bandas locais em sua maioria cantam em inglês, e a situação só não é pior para o idioma holandês na música porque existem bandas como o reggae do Doe Maar (nos anos 70 e 80) e o rock do Bløf (anos 90 e 2000) que mantêm viva a identificação dos holandeses com músicas cantadas em sua própria língua. A impressão de quem pesquisou tanto Holanda como Bélgica é a de que a produção musical expressiva em língua holandesa ocorre mesmo é na região de Flandres, na Bélgica (onde o dialeto local do holandês recebe o nome de flamengo).

Mas e a tal surpresa, em que termos ocorreu? Bem, se por um lado a produção musical da Holanda em idioma próprio é pouco expressiva numericamente em vista da posição que o país ocupa no planeta, por outro lado esta produção reserva vários artistas de boa qualidade. Alguns surpreendem pela experimentação e inovação, como é o caso do Spinvis, que merece um texto à parte; outros, pela variedade de estilos, como o próprio Bløf e o Is Ook Schitterend (nome impronunciável para nós, pobres lusófonos, com freqüência abreviado para I.O.S.). Outros ainda nada ficam a dever para o que rola no mercado fonográfico mundial, como o punk rock do Heideroosjes e o hip-hop de artistas parceiros como Ali B, Brace e Lange Frans. Isso sem falar na música folclórica em dialeto frísio do Irolt e no pop-folk da dupla Twarres, que também arrisca umas canções em frísio. E até música brega tem estilo próprio: é o levenslied, contrapartida do alemão schlager, com destaque para Frans Bauer e Marianne Weber.

Foi portanto reconfortante encontrar na Holanda esta produção musical que, ainda sendo pouco extensa, é significativa por sua qualidade e diversidade. Num país comodamente alinhado ao Império fonográfico de língua inglesa, é o trabalho destes artistas que nos faz acreditar que uma valorização da própria cultura e do próprio idioma está a caminho. Esperamos que estes sejam indícios de que a Holanda está caminhando para produzir música com características e dimensões que honrem as tantas contribuições culturais que o país já nos legou.