Julho é um período especial no calendário. Pelo menos eu acho. É no mês dedicado ao Imperador romano Júlio César que temos de 4 em 4 anos a Copa do Mundo e as Olimpíadas. É inverno no hemisfério sul, estação que me agrada umas mil vezes mais que o verão (derreter no calor só vale a pena no litoral, onde nunca morei). Talvez seja só impressão minha, mas parece que todo ano vemos um número maior de festas juninas virando festas julinas, então mais um ponto a favor. E para muita gente julho é sinônimo de férias, o que já é motivo o bastante pra dar valor a esse mês.

E julho é também quando acontece o Tour de France, evento mais famoso do ciclismo mundial. Ao longo de 3 semanas, cerca de 200 ciclistas encaram mais de 3 mil quilômetros de estradas e montanhas na disputa pela camisa amarela até a chegada em Paris, junto ao Arco do Triunfo. É um dos maiores espetáculos do esporte, sobre o qual poderia me estender aqui longamente, mas o assunto principal deste site é música, e é de música que vamos falar aqui. Mais especificamente, da relação de anos que o Kraftwerk tem com o ciclismo, em especial o Tour, e nos frutos musicais que essa relação rendeu.

O grupo alemão, mais conhecido por tratar de temas tecnológicos como robôs, computadores e autoestradas, lançava em 1983 o single “Tour de France”, composto durante as gravações do que viria a ser o álbum Electric Café/Techno Pop, lançado apenas em 1986. A melodia era acompanhada por sons relacionados ao tema, como as correntes da bicicleta, os mecanismos de engrenagem e a respiração do ciclista, além da letra em francês (também foi lançada uma versão em alemão).

A ideia partiu do vocalista Ralf Hütter, que procurava uma maneira de se exercitar que tivesse a ver com a imagem do Kraftwerk, e encorajou seus companheiros a também adotar o ciclismo (e o vegetarianismo também). Na época do lançamento do single, Hütter tentou persuadir o resto da banda a gravar um álbum inteiro sobre o esporte, sem sucesso. Foram necessários 20 anos até que o Kraftwerk voltasse a incluir o tema ciclismo/Tour de France em suas músicas.

Em 2003, centenário da primeira edição do Tour, os alemães aproveitaram a ocasião para lançar seu primeiro álbum de inéditas em 17 anos, e o último desde então. Tour de France Soundtracks traz, como o nome sugere, apenas faixas sobre a volta ciclística francesa. O álbum começa com “Prologue” que, além de abrir o álbum, tem esse título em referência ao nome dado à primeira etapa do Tour. As faixas seguintes são “Tour de France – Étape 1”, “Tour de France – Étape 2” e “Tour de France – Étape 3”, resultado de um experimento interessante. Todas apresentam a mesma letra, enquanto os arranjos são bastante diversos, como se cada uma representasse os diferentes perfis de etapa: plana, montanha e média montanha. A faixa seguinte, “Chrono”, é sobre o contra-relógio, prova onde o ciclista pedala sozinho ou em equipe, com características semelhantes a um rali de velocidade. Não por coincidência, esta é a música com a batida mais acelerada de todo o álbum.

A partir daí, Tour de France Soundtracks toma outra direção, girando em torno de dois personagens: o ciclista e a bicicleta. As faixas 6, 9, 10 e 11, respectivamente “Vitamin”, “Elektro Kardiogramm”, “La Forme” e “Régéneration”, tratam da preparação física e dos esforços a que são submetidos os atletas, que pedalam em torno de 200 km por dia, com apenas 2 dias de folga para a recuperação mencionada na faixa 11 (que também, não por coincidência, é a música mais calma). “Aéro Dynamik” fala da busca pela perfeição no conjunto homem-bicicleta enquanto a 8ª faixa, “Titanium”, lista os materiais empregados numa bicicleta de estrada, que pode chegar a pesar menos de 3 kg. Fechando o álbum, temos “Tour de France”, o single de 1983, com arranjos ligeiramente diferentes da versão original.

Aqui vocês ficam com o vídeo de “Tour de France – Étape 2”

Fica a dúvida: será que esse álbum já foi usado em alguma aula de spinning?