Ao pesquisarmos a África do Sul, tínhamos a expectativa de encontrar música quase que totalmente em inglês, o que praticamente inviabilizaria a nossa proposta. Mas não foi bem isso o que aconteceu, conforme contamos no texto África do Sul é logo ali. Apesar de ser a língua da grande mídia e de servir de ponte entre diversos povos locais e imigrantes, o inglês nem de longe é a língua dominante na África do Sul. Com o fim do apartheid, as línguas locais de origem bantu estão ampliando seu espaço também na mídia e na produção cultural.

Mas não é exatamente de um idioma puramente local de que trata este post. Antes, sim, de um híbrido, herança dos primeiros colonizadores, os holandeses, que foi adotada não só pela elite branca como também pelos negros de culturas e línguas distintas em diversos contatos feitos entre si. O africâner (ou Afrikaans, segundo o próprio) é do ponto de vista lingüístico um idioma puramente germânico. É ainda muito próximo ao holandês, e herdou deste o seu vocabulário, o que torna relativamente fácil a um holandês entender um texto escrito em africâner. A gramática do Afrikaans, porém, é bem mais regular, e há apenas uma mesma forma verbal para todas as pessoas, como é a tendência nas línguas germânicas. A ortografia é mais simples, já que próxima da fala e também por ter deixado de lado muitas consoantes mudas que no holandês continuam sendo grafadas.

A banda de punk-rock Fokofpolisiekar é formada aparentemente por rapazes da elite de origem européias. Desde o começo deste trabalho, seus integrantes se propuseram a criticar e chocar esta minoria branca conservadora, a começar pelo nome da banda. Basta saber um pouco de inglês e separar as palavras aglutinadas em uma só para entender o que quer dizer “Fokofpolisiekar”. O nome da banda é bem direto e agressivo, o que causa problemas na mídia, que, para evitar a linguagem obscena, costuma se referir ao grupo apenas como “Polisiekar”.

Mas não é apenas o nome da banda Fokofpolisiekar que é chocante. A posição política de seus integrantes é transmitida em letras que não só retratam a tensão social da África do Sul, com suas altas taxas de criminalidade, mas que são também declaradamente anti-religiosas, o que traz outro incômodo àquela mesma elite branca, na qual há muitos católicos. A agressividade das letras, unida ao contundente som do punk rock, fazem da Fokofpolisiekar um termômetro da convulsão social por que passam os sul-africanos.