Coisificação do homem ou humanização das coisas? Em tempos caracterizados por homens e mulheres objeto, há também espaço para aqueles que percorrem o caminho inverso. Basta sentimento, imaginação e de repente certas coisas passam a ganhar vida e personalidade.

Seja nas incursões literárias ou mesmo no campo puramente afetivo. Aquele ursinho de pelúcia chamado pelo nome, o carro que tem vontade própria, o boné de estimação, o computador temperamental… Músicas também, por que não? Canções podem ser alegres, tristes, introspectivas, profundas, superficiais, bobinhas, engraçadas, sem noção… Álbuns então podem ser ainda mais do que isso, podem ser pessoas complexas. A banda portuguesa Clã que o diga, afinal em 2007 lançou o seu segundo álbum-mulher consecutivo. Nos revela Manuela Azevedo, vocalista da banda:

“O ‘Rosa Carne’ (álbum de 2003) teve aquela mulher da capa, uma espécie de ‘Alice no país das maravilhas’ já entradota. Já a imagem que tenho da mulher que está neste novo disco – porque mais uma vez ele anda um bocadinho à volta do universo feminino – não é de uma rapariga jovem. Não é, de facto, esse regressar a uma frescura que se perdeu. É a mesma mulher entradota, mas atrevida”

Por “entradota”, Manuela quer dizer que a rapariga em questão não é assim tão nova, já é uma mulher mais madura. Com “atrevida”, ela chama a atenção para a principal mudança de seu novo trabalho. Cintura é um disco mais leve, mais solto que o anterior – Rosa Carne. Se ambos representam uma mesma mulher, neste novo álbum ela está sem dúvida mais descontraída e um tanto menos complicada. Dizer que a rapariga esteja alegre já seria um exagero, mas parece que neste álbum ele resolveu se libertar de algumas coisas. Completa Manuela:

“A abrir portas e a sair por aí fora, consciente, com uma atitude irónica sobre si própria e também em relação ao mundo, onde aprende e desaprende. Com vontade de experimentar outras coisas e transgredir noutras”

Essa busca por aventura fica clara em canções como “Tira-teima”, “Mandarim” e “Fábrica de Amores” e em alguns momentos soa totalmente impossível de identificar, envolvida em algum disfarce. Tudo realmente feminino: indecifrável e encantador. O fato é que a audição cuidadosa do cd não deixa dúvidas. A mesma mulher, o mesmo Clã, mais um ótimo trabalho.

Infelizmente eu não tive o prazer de entrevistar a Manuela. As aspas foram retiradas de um site dedicado a banda. A entrevista em questão foi concedida ao Jornal de Notícias, de Portugal. E Cintura será uma das estrelas do nosso próximo programa semanal, que vai ao ar no domingo, às 18h. Até a próxima.