Ao som do reggaeton mais conhecido pelas bandas de cá, me lembro da experiência antropológica que vivi pelos lados de Cuzco, Peru. A trilha sonora também era composta pelo ritmo de MC Papo, mas, ao invés de ver “piriguetes”, conheci as “bicheras”.

A história toda começa com Daniela*, uma menina de dez anos que queria me vender bonequinhas de pano. Ao saber que eu era brasileira, olhou para cima, fez cara de quem estava tentando lembrar de alguma coisa e disse quase sem respirar: “Brasil: moeda Real, capital Brasília, presidente Lula, 9 dedos”**.

Achei genial a sacada da menina e quis puxar assunto para ver com o que mais ela iria me presentear. Papo vai, papo vem, e Daniela começa a me perguntar sobre namorados. Ao contrário de qualquer brasileira que se encanta facilmente pelo sotaque castelhano, Daniela me deu a dica: “Que argentino que nada! Você tem que namorar um europeu. Ele que vai te tirar daqui e te levar pra morar lá”.

“Espanha: moeda Euro, capital Madrid, bandeira vermelha e amarela, igrejas cheias de ouro”. Depois que Daniela abriu meus olhos, minhas noites nunca mais foram as mesmas. Não que eu tenha passado a perseguir europeus pelas boates de Cuzco, apenas comecei a reparar na quantidade de peruanas que estavam acompanhadas ou buscando a companhia de algum gringo de olhos azuis.

Um amigo brasileiro que estava morando por lá há quase três meses, me contou uma história horrível (ou incrível). Ele presenciou uma cuszqueña enraivecida aprontando um barraco no banheiro porque seu pretendente estava acompanhado por outra mulher. “Você sabe o que você está fazendo? Está acabando com a minha chance de sair daqui!”.

Foi esse mesmo amigo que deu nome aos bois: bicheras. Mulheres que freqüentam as mesmas boates que os turistas com a única e exclusiva intenção de fazê-los se apaixonar para levá-las embora.

“Peru: moeda Novo Sol, capital Lima, paisagens maravilhosas, mulheres comuns”.

* e ** : Os nomes e a pronúncia das palavras foram modificados para melhor compreensão da história.